Há um conluio invisível e público ao mesmo tempo entre os setores dominantes do grande empresariado, da mídia como parte deste, do latifúndio, dos agentes dos altos escalões dos poderes constituídos e da força militar que ditam as normas ao arrepio de qualquer lei.
O Brasil nunca superou os apartheids social, político, econômico e racial que herdou do período colonial. Em todos os poros da sociedade brasileira respira-se essa divisão real e camuflada. Nós temos uma educação pública (ensino básico) de péssima qualidade voltada para as famílias de baixa renda, enquanto que os ricos frequentam escolas particulares bem equipadas. O mesmo se reproduz na área da saúde, pública e decadente para os pobres, privada e de boa qualidade para os ricos. E quando há algo de bom na área pública - as universidades federais, por exemplo - é apropriado pelo ricos. Poder-se-ia argumentar que é próprio do capitalismo essa divisão de classe com as correspondentes distorções em todas as esferas da vida. Concordamos. Mas há elementos impregnados na formação cultural da população brasileira que talvez contribuam para "abrandar", usando uma expressão em voga, a trágica realidade nacional. A terrível prática do jeitinho brasileiro, ou da conciliação pelo alto, ou do toma-lá-da-cá entre as elites e intelectuais orgânicos do sistema, combinado com a promíscua relação do público e do privado, entre outros fatores, contribuem para manter e aprofundar os apartheids existentes. No plano econômico, ocorre no Brasil o que verificamos em qualquer país do mundo, já que estamos todos sob o domínio do sistema capitalista. A concentração de riquezas em poucas mãos convive com enormes contingentes de miséria absoluta e relativa. A reprodução do capital só faz alargar o fosso entre os dois lados opostos desse sistema. Naquilo que deveria ser o espaço público da chamada cidadania - a política, os poderes constituídos em tese para administrar e controlar a coisa pública em favor de todos - o apartheid tem um traço diferente do econômico, que ajuda a mantê-lo. Se a realiadade econômica é visivelmente desigual, e aceita pela maioria quase como coisa natural, no espaço supostamente público, não. A desigualdade, embora real, não é formalmente reconhecida e é negada pela carta constitucional. Vivemos uma democracia plena, dizem, embora a maioria da população não tenha sido apresentada até o momento a essa misteriosa dama. O cidadão comum consegue no máximo pequenos espaços na mídia, não tem acesso à Justiça - a morosidade torna-se a negação do direito, mesmo quando líquido e certo, sem falar nos custos advocatícios para quem ousar demandar, por exemplo, contra o estado; não tem acesso a cargos públicos que não sejam os de carreira, a não ser quando ligado a esquemas de poder das elites dominantes. O outro lado da moeda, os ricos, controlam o poder judiciário, o legislativo, o executivo, a grande mídia, o exército, as receitas e os investimentos públicos, enfim, todos os poros da sociedade são controlados por interesses opostos aos da maioria da população assalariada. As eventuais mudanças de governo não conseguem alterar esse controle hegemônico sobre os pontos estratégicos da economia e das demais esferas da vida. Não é toa que nunca há verbas para a educação pública, ou para a saúde pública; o PT de Lula, por exemplo, que tinha um discurso de inversão das prioridades antes de ser governo, agora tem que se curvar diante da mesma ladainha dos tucanos e outras forças que governaram o Brasil: educação e saúde pública de qualidade para os pobres são coisa para o futuro, quem sabe com pré-sal, já que as receitas do presente são apropriadas por banqueiros e proprietários da dívida pública brasileira, sustentada pelo superávit primário e pela política monetária de juros altos. Mas, a insistente tentativa de camuflar os apartheids passa pela naturalização das diferenças. É natural, dizem, que as terras estejam concentradas em poucas mãos e que as tentativas de reforma agrária sejam combatidas como agressão ao sagrado direito à propriedade privada. É natural também a péssima distribuição de renda, que coloca quase um terço da população dependente de uma bolsa-família de sessenta e poucos reais mensais em média. A violência e o banditismo originados dessa realidade são apresentados como um traço inerente ao ser humano, que deve ser combatido com mais polícia e cadeia. A naturalização é estendida à vida política e ao judiociário, onde certas figuras são apresentadas cotidiamente pela mídia como uma espécie de coisas sagradas cujas opiniões ardilosamente trabalhadas, mesmo quando beirando o ridículo, não podem ser questionadas. Não podemos estranhar quando um jornal como a Folha de São Paulo classifica a ditadura instalada em 1964 por um golpe de estado, que matou e torturou e prendeu centenas de pessoas como "ditabranda"; ou que o presidente da maior Corte do Judiciário venha a público condenar um movimento social legítimo como o MST, quando nunca se ouviu da parte dele igual reclamação em relação a jagunços financiados pelo latifúndio que já mataram tanta gente Brasil afora. Ou quando a revista Veja arma alguma reportagem com forte teor golpista e falso-moralista, sempre em favor dos poderosos e contra o povo. Ou ainda quando a Globo transforma um recorte da realidade em verdade absolutizada pelas vozes sacerdotais de comentaristas bem pagos. São exemplos de como os mecanismos de poder - ideológico, político, econômico e militar - continuam, desde a ditadura, controlados pelas mesmas forças. Mas, pior do que os muitos apartheids brasileiros não é a constatação da sua existência. O pior mesmo é a forma acomodada com que a população pobre e mesmo a chamada classe média aceita essas desigualdades. São muito frágeis os brados de protesto, de luta e de resistência, infelizmente. Notícias de corrupção por toda parte, favorecimento a banqueiros e empreiteiros, de agressão aos movimentos sociais, de perseguição a quem se revolte contra essas realidades viram espetáculo midiático que termina na semana seguinte, quando a TV Globo troca o assunto para os Big Brotheres e seus afins. Há uma cultura de aceitação, combinada com o medo, a manipulação, a alienação e os interesses individuais estimulados pelo sistema capitalista - que nos torna cúmplices, gostemos ou não, de toda essa trágica realidade. Ao mesmo tempo, há um conluio invisível e público entre os setores dominantes do grande empresariado, da mídia como parte deste, do latifúndio, dos agentes dos altos escalões dos poderes constituídos e da força militar que dita as normas ao arrepio de qualquer lei. Um núcleo pequeno de pessoas, numericamente falando, que perpassa os diversos partidos políticos e articula setores orgânicos da intelectualidade vendida, conseguindo com isso manter o controle sobre a economia do país, sobre os meios de comunicação, sobre os espaços que deveriam ser públicos e sobre a força militar, usada quando seus interesses estão ameaçados. Da parte majoritária da população, que produz as riquezas sociais, as lutas são pulverizadas e ocasionais, movidas ora por pequenos interesses individuais ou de pequenos grupos, embora legítimos, ora por algum ocasional modismo, combinado com a aceitação tácita ou explícita do status vigente. Mas não há uma visão e uma perspectiva clara de combate auto-organizado e sistemático ao núcleo duro do poder. No lugar disso, manifesta-se uma subserviência intelectual e prática de uma massa numericamente gigante em relação ao pequeno núcleo dominante. Os apartheids do Brasil algum dia podem até desaparcer, não duvido, mas não será pela benevolência dos de cima, mas somente quando a maioria dos de baixo decidir finalmente cobrar a sua parte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário