sexta-feira, 3 de abril de 2009

Entrevista com Flanix


Por Luis Depeche

O incansável produtor Evandro Iwaszko, mais conhecido como o Flanicx, é um dos cérebros por trás do Psicotropicodelia Music, netlabel que reúne alguns dos talentos brasileiros mais ousados da eletrônica, além de contar também com artistas internacionais da produção não-convencional, avessa aos “hypes” passageiros. Nesta sexta ele fará sua estréia no formato live na Toy Lounge, em São Paulo, então aproveitamos para perguntar sobre as novidades, parcerias e, claro, muita música. Confiram a entrevista abaixo:

Lendo a biografia do seu projeto, notei que as suas primeiras experiências no universo musical começaram com o rock. Como surgiu o interesse pela música eletrônica?

O interesse por música veio antes de tudo. Ouvia os discos dos meus irmãos mais velhos e pirava, ouvia de tudo. 60s, 70s, heavy metal e thrashmetal, mas também curtia Kraftwerk, Neubauten, Front 242, Front Line Assembly, Pop Will Eat Itself, New Order, Public Enemy, Run DMC, Bomb the Bass… Sempre fui promíscuo em relação aos estilos.Sou guitarrista, toco em bandas desde 1990, com a banda Red Eyes (desde 93), então participei da onda “indie” dos 90.

O Red Eyes misturava rock com eletrônica, temos videos de shows de 98 onde disparávamos samples de um PC e um teclado tosco. O nosso “DJ”, por assim dizer, disparava samples de um 586.


Que tipos de som você curtia e que te inspiraram a criar o seu projeto de música eletronica?

Como já ouvia de tudo um pouco, me interessei por softwares de edição de música e os novos e diferentes métodos que surgiram com o uso desses softwares. Na real, foi mesmo a curiosidade e experimentação, aliados ao surgimento da internet no Brasil e, até mesmo, ao FiberOnline. Acompanho o Fiber desde o começo em 97.


Ouvindo as suas produções, dá pra notar que você curte as vertentes , digamos assim, mais quebradas da música eletrônica. Tem alguma coisa num formato eletrônico mais 4×4 que você curte?

Eu gosto de techno, acid e hardtechno !!! Batia carteirnha em festas como: Hell’s, Rave Patrol, SP Groove, Rebordose Eletrônica (volta, Rebordose, volta !!!), o Susi in Transe…
Há um tempinho soubemos que você e outros produtores remixaram um dos trabalhos do Bruno Beluomini. Como rolou a oportunidade?

Conheci o Belluomini pelo Submusica, rádio online onde os DJs transmitiam os programas ao vivo de suas bases/studios/home-studios. Sou fã de carteirinha do Tranquera, ouço e apoio o programa desde sempre. Acessem o www.tranquera.org pra conhecer melhor a proposta.

A parceria surgiu naturalmente da troca de informação, do contatoo pela net. O Bruno comentou que havia gravado algunssons, como estática de rádio, e queria transformar isso em algo novo. Daí por diante foi fácil. Eviamos a gravação para alguns produtores e o o resultado foi excelente.


Falando em novas tendências eletrônicas, o que você tem achado da produção de dubstep?

Ouço muito dubstep !!! Acho foda !!! Os graves fazem meu estômago tremer !!! Skream, Loefah, Burial, Mala, Hatcha, Benga são os mais conhecidos, mas ouço rádios online dedicadas ao dubstep como: SUBFM e DubTerrain, descubro muita coisa nova e interessante. O mais legal dessas rádios é que os sets depois ficam disponíveis online para download gratuito.


Você acha que é um estilo que, considerando os poucos anos de existência, já deixou potencialmente alguns clássicos que serão lembrados daqui a dez, vinte anos, ou é apenas um híbrido de estilos passageiro que já já poderá mudar de formato e nome, mais ou menos como aconteceu entre a transição do jungle para o drum´n´bass.

Por ser uma vertente relativamente nova na música eletrônica, acho que criou raízes muito sólidas, mas a gama de possibilidades é ainda infinita e imprevisível. Eu comparo o dubstep com o fenômeno do hip hop. É uma cultura nova, tem identidade forte, por isso acho que chama muita atenção e é interessante. O dubstep é uma evolução na mistura de vários estilos, tem referências de dub e dancehall, é a cultura do grave pulsante, das baixas frequências. Podemos dizer que o “gênero” dubstep é genuinamente do século XXI.

Se haverá evolução ou se será lembrado daqui 20 anos é muito cedo pra dizer. Tomara que sim !!!


Você faz parte de um coletivo de artistas e netlabel - o Psicotropicodelia Music - que trabalha com estilos de música eletrônica pouco explorados na produção nacional, ou talvez até menos comerciais. Como é que funciona então o desenvolvimento desta proposta?

O projeto surgiu com o Harlem “AlienaQtor” em 2007 e está atingindo proporções inimagináveis. É mantido tudo à distância, ainda não nos conhecemos pessoalmente, é tudo feito pela internet. O Harlem publicava o blog “Contos de Psicotropicodelia”, dedicado às trilhas sonoras de filmes e também apresentava o programa Core ao Cubo, no Submusica. O netlabel nasceu do blog, da ideia de divulgar o ñ convencional, de criar parcerias, de trocar experiências e informações, de juntar extremos, de ir do ambient ao breakcore, de misturar vários estilos numa salada só, mas nada de “hype” em eletrônica. Tudo menos o convencional !!!

O selo está crescendo, tanto em parcerias e novos releases, quanto em número de downloads. O Flavio Lazarino, que ajudou na parte visual assinando a arte do PMV # 2, agora também faz parte da equipe de coordenadores. Até agora foram 18 releases publicados - coletâneas com produtores brasileiros e estrangeiros + eps + álbuns + trilha sonora do média metragem “Era dos Mortos” + relançamentos. Vem muita coisa por aí !!! Isso é só o começo !!!


Vi que tem alguns produtores gringos que aderiram ao projeto. Como é que rolou isso?

Os gringos estão presentes desde o 1° release, a coletânea “Psicotropicodelia Music Vol. 1″. O Harlem já mantinha ctto com alguns deles, mas a coisa foi se espalhando à medida que tudo foi acontecendo. No terceiro volume da coletânea, brasileiros e estrangeiros estavam quase na mesma proporção. Aliás, no Vol. 3 foram mais de 200 músicas submetidas para análise, daí peneiramos tudo até chegar em 38.

Foi impressionante !!! Limamos material impecável, dava remorso deixar alguém de fora ! Virtual Image, Headloc, Helldrigo Varetz [Tatari Gami] e Leonardo Miranda [Leoaphex] participaram da seleção do material na ocasião. O mais empolgante do selo é que tentamos fazer com que todos envolvidos participem de alguma etapa diferente do processo, assim, algumas tarefas são divididas e a cooperação é cada vez maior e mais eficiente.


Fale um pouco sobre o seu processo de produção. Você costuma usar muitos samples, e a partir dai desenvolver uma estrutura própria para as faixas, costuma partir de uma idéia, de uma sonoridade específica ou é pura experimentação, começando tudo do zero.

Eu não tenho uma fórmula exata de composição. Gosto de criar meus beats. Utilizo de técnicas de improvisação de escalas pra compor melodias. Uso vários softwares em rewire, mas gravo instrumentos e vozes também. Aprendi muita coisa c/ o Garfield “NSLOD”, ele é 1 tipo de guru para mim e um grande apoiador do meu trabalho.

Acho fundamental experimentar. Os processos quase nunca são os mesmos e os resultados são infinitos.
Já gravei guitarras em uma Tascam de fita K-7 pra editar posteriormente no PC. Nas gravações do curta “Arcos Azuis” (Jefferson Manes, 2008, pela Zuba Filmes), gravamos com amplificadores em um banheiro, fizemos sobreposições com baixos e experimentamos várias técnicas diferentes de captação. Os samples que uso têm licenças Creative Commons para uso derivativo. Também disponibilizo meus próprios samples no ccMixter, OverMundo e sites similares para que outros produtores possam usa-los e modificá-los.


Se você pudesse escolher qualquer faixa/artista pra remixar, pra deixar sua marca eletrônica registrada, qual seria?

Silver Apples, sem dúvida !!! Na minha opinião Silver Apples tem a mesma importância que Kraftwerk, só que são menos conhecidos e praticamente da mesma época.
O seu projeto existe apenas no estúdio, ou já rolaram oportunidades de apresentar suas faixas num formato live?

Fiz alguns experimentos em studio mais como pesquisa p/ formatar um possível live. Dia 03 de abril , nesta sexta, me apresento na festa “Block Rockin Beats” da Toy Lounge: Flanicx vs Dj Pilha, Reverse Tunes, Thiago Dj, Dériow e 19D… festa de breakcore rasgorelha. Não percam !!!

Será minha primeira experiência do tipo, mas não como formato definitivo. Não sou DJ, a idéia de discotecar me assusta muito ! Então a parceria com o Dj Pilha será o pontapé inicial pra que eu tome vergonha na cara e coloque em prática minhas pirações ao vivo.


E quais são as novidades pra esse ano, tanto da sua produção autoral como do coletivo?

O selo terá muitos lançamentos. Se depender de mim, não pára nem pra descanso !!! Psicotropicodelia é meu xodó atualmente !!! Wm breve colocaremos o site oficial do selo no ar. O blog funcionou muito bem apesar de ser provisório. Tem o curta “Oxumarê” (direção do Harley Kremer), no qual participei da composição e gravação da trilha sonora.

Estou organizando os remixes do 1° álbum da banda Megatherio - o álbum oficial sai agora em abril ou maio, e também fiz a pós-produção desse disco com o Flandersong, baixista da banda, mas os remixes ainda não têm data prevista de lançamento. Além disso, vou ou relançar meu CD demo de 2005 em formato virtual e planejo o lançamento do meu álbum oficial também pra esse ano.
Aproveito aqui pra agradecer ao Fiber pela oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho. O apoio de vocês é muito, mas muito importante mesmo para a cena eletrônica brasileira !!! Peço a produtores/bandas/DJs que se interessarem por parcerias, que entrem em contato: flanicx@yahoo.com.br.

Para enviar material para análise e futuros lançamentos pelo netlabel Psicotropicodelia: melrah.records@gmail.com,
http://www.psicotropicodelia.com.

Fonte: Fiberonline

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