sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Última Viagem


Por David Fricke

Planos épicos, problemas terrenos e bela música: os frenéticos meses finais e as gravações perdidas do deus da guitarra, Jimi Hendrix

Na noite de 26 de agosto de 1970, Jimi Hendrix passou pela porta de um edifício na 52 West 8th Street, no bairro de Greenwich Village, em Nova York, e entrou no paraíso. O Electric Lady Studios era o moderno estúdio de gravação do guitarrista, e ele havia supervisionado pessoalmente muitos de seus detalhes psicodélicos, como o mural de uma mulher diabólica no console de uma nave espacial. Nessa noite houve a festa oficial de abertura. Convidados como o guitarrista Johnny Winter, Yoko Ono e Mick Fleetwood (baterista do Fleetwood Mac) comeram pratos japoneses no Estúdio A, onde Hendrix normalmente tinha pilhas de amplificadores.

Só que Hendrix evitou a badalação. Um dos artistas mais extravagantes do rock - mas um homem reservado e incrivelmente tímido fora dos palcos -, ele estava distante e triste, passando boa parte da festa sentado em uma cadeira de barbeiro, em um canto quieto da recepção. Seria sua última noite no Electric Lady. Hendrix morreu três semanas depois, em Londres, aos 27 anos.

O estúdio que deveria ter sido o santuário de Hendrix também era uma fonte de estresse e frustração. Apesar das vendas recordes, o músico lutava por dinheiro para custear a construção no Electric Lady, mudava as formações da banda e brigava com seu empresário. Mas, mesmo durante a maré baixa, ele olhava para a frente, como afirmou em uma música da época, "Straight Ahead".

Nascido em Seattle, ele já tinha revolucionado as raízes blueseiras, a fúria amplificada e o futuro orquestral da guitarra elétrica em três discos que fizeram sucesso no mundo inteiro: Are You Experienced (1967), Axis: Bold as Love (1968) e o duplo Electric Ladyland (1968), gravados com a Jimi Hendrix Experience: a base rítmica britânica do baterista Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding. Também houve turnês constantes e tensões crescentes, especialmente com Redding, sobre questões de dinheiro e as próprias ambições deste como cantor e compositor. Mesmo antes de Hendrix dissolver a Experience, em meados de 69, ele levava sua música para além do blues elétrico e do acid rock, gravando com músicos de jazz e soul como o baterista Buddy Miles, o baixista Dave Holland e o futuro guitarrista da Mahavishnu Orchestra John McLaughlin. "Meu sucesso inicial foi um passo na direção certa", disse Hendrix em uma entrevista, em junho de 1969, quando a construção do Electric Lady estava em andamento. "Mas foi só um passo, só uma mudança. Agora, quero me envolver com outras coisas. Há alguns anos, tudo o que queria era ser ouvido. 'Deixa eu entrar' era a frase de ordem. Agora, estou tentando pensar na maneira mais sábia de ser ouvido."

Localizado em cima de um cinema, em um espaço que mais recentemente havia sido a casa noturna de rock Generation, com uma impressionante fachada de tijolos que se destacava sobre a calçada como a barriga de uma grávida, o Electric Lady foi concebido por Hendrix com seu empresário, Michael Jeffrey, e seu fiel engenheiro de gravação, Eddie Kramer, no início de 1969. O design e a construção levaram mais de um ano, e o custo final foi cerca de US$ 1 milhão. Foi um empreendimento histórico. O Electric Lady era o primeiro grande estúdio comercial de Nova York, criado especialmente para - e de propriedade de - um astro do rock dos anos 60. Em comparação, os Beatles e Bob Dylan gravavam, na maior parte do tempo, em instalações de suas gravadoras, de acordo com regras corporativas rígidas. Durante anos, na Abbey Road em Londres, os Beatles trabalharam com engenheiros de estúdio que deviam vestir aventais brancos de laboratório.

Para Hendrix, o Electric Lady também era um refúgio da confusão. Ele estava cansado de sua fama - "Não quero mais ser um palhaço, não quero ser um astro do rock and roll", reclamou para a Rolling Stone, em 1969 - e frustrado com a pressão de Jeffrey para continuar na estrada, ganhando muito dinheiro rápido. Hendrix passou uma boa parte de 1968 e o outono de 69 fazendo turnês pela América do Norte. No Electric Lady, ele - que estava viajando sem parar desde meados dos anos 60, quando era músico de apoio de astros do R&B como Little Richard e os Isley Brothers - finalmente tinha um lugar para chamar de seu, onde podia viver com sua música sem interferência. "O sonho era esse", diz o veterano arquiteto de estúdios John Storyk, que tinha apenas 22 anos quando Hendrix o contratou para projetar o Electric Lady. "Como artista, esse lugar se torna sua casa."

Hendrix realizou sua primeira sessão formal de gravação no Estúdio A em 15 de junho de 1970, dois meses antes da festa de abertura. O local estava uma bagunça - um segundo estúdio ainda estava sendo construído no final do corredor, mas Hendrix começou logo a trabalhar com seu trio do momento: Mitchell e o baixista Billy Cox, um velho amigo do período de Hendrix no Exército, no início dos anos 60. Eles tocaram uma nova instrumental, "All God's Children", e, depois, Hendrix editou overdubs de guitarra para o rock turbulento "Ezy Ryder" e fez uma jam com um convidado, Steve Winwood, do Traffic, em uma das inéditas preferidas do guitarrista, "Valleys of Neptune". Essa música, em uma encarnação diferente, agora é a peça central de um álbum de gravações inéditas de Jimi Hendrix, que leva o mesmo nome.

Fonte: RollingStone

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