terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Mães de sempre
Livro que transforma luto em luta traz dados, pesquisas e teses sobre as execuções de mais de meio milhão de jovens em 10 anos nas periferias brasileiras.
Por Jéssica Balbino
Se você for uma pessoa acomodada, não leia este livro. Aliás, pare agora mesmo de ler esta resenha. Mães de Maio é um livro para fortes, feito por gente mais forte ainda, que como o próprio título já fiz, transformaram o luto em luta, dando voz àquelas que perderam as pessoas mais importantes de suas vidas, mas nem por isso, deixaram de se levantar, todos os dias, e despedaçadas, uniram-se a pedaços iguais, montando uma colcha de retalhos que, de tão desigual, transforma-se em uniforme e linear no dia-a-dia dos jovens pretos e pobres, exterminados violentamente pelo Estado.
Denúncias fundamentadas tiram do livro o aspecto de drama pessoal e traz a tona um drama da sociedade brasileira “Por que o Estado, que deveria zelar pelos direitos dos cidadãos, mata, indiscriminadamente?”. O início do livro tem cara de matéria da revista “Caros Amigos”, mas longe de ser permeado de um discurso esquerdista, traz, em suas primeiras páginas, o depoimento das muitas mães de maio, de abril e todos os meses do ano, que com ou sem os seus filhos, engajam-se numa luta pelo fim da violência gratuita e da guerra civil velada, instalada em nosso país.
A narrativa ao melhor estilo da revista aprimora-se e em alguns momentos, me senti remetida ao Rota 66, do escritor Caco Barcellos. Ali, percebe-se que “Mães de Maio” não achismo combinado a dor, é pesquisa, levantamento de dados, estatísticas. Mas, os filhos mortos não são apenas números. São pessoas, com histórias de vida, sentimentos e mortes assoladoras. Mas são pessoas.
Em formato pouco convencional, o livro, que traz um assunto de peso, está longe de ser maçante e passeia por ilustrações de Latuff, diagramação diferenciada, poesias de Sérgio Vaz, Rodrigo Ciríaco, Michel Yakini, Marcelino Freire, GOG, entre outros representantes do hip-hop e dos saraus paulistas.
Teses e artigos também não ficam de fora, assim como o intercâmbio com Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo, locais onde autores também relatam mortes praticadas pelo Estado contra jovens negros e periféricos.
Longe de ser planfetário, o livro funciona mais como um grito desesperado, de dor, que vem daqueles que perderam tudo, menos a força para a luta, para acreditar que ainda pode ser diferente e que menos jovens devem/podem morrer nas mãos do Estado caso abramos os olhos, ignoremos a dor de estômago causada pelos relatos reais e façamos alguma coisa.
Empunhando armas (livros), quem sabe?! Mães de maio foi escrito a muitas mãos e mães que em 10 anos – entre 1998 e 2008 – enterraram 500.000 filhos, segundo dados do “Mapa da Violência” divulgado em 2011 pelo Ministério da Justiça.
E a luta segue, camuflando o luto, em forma de livro, que, de tão visceral, nos faz enxugar as lágrimas rapidinho e querer partir para a briga também, afinal, somos filhos, pais, cidadãos periféricos, fadados ao extermínio, caso deixemos de agir.O livro encerra-se com uma reportagem de Tatiana Merlino, da “Caros Amigos” e eu fui obrigada a me fazer pergunta: “que mais posso fazer, senão, jornalismo cidadão?”.
A resposta está para quem lê. As mortes seguem, os protestos também. Assim como a “periferia segue sangrando”.
Serviço – Para saber mais sobre o livro e o movimento, acesse o blog http://www.maesdemaio.blogspot.com/

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